Qual é o preço da perfeição? Depois de quanto tempo se pode dizer que alguém é realmente bom em algo? Qual é o seu verdadeiro talento? Você define o seu fazer ou o seu fazer define você?
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Essas e outras perguntas são tragicamente colocadas em Kokuho – O Preço da Perfeição. O filme japonês é um épico dramático ao mostrar as várias fases emocionais de uma vida dedicada à arte.
“No auge econômico do Japão pós-guerra, Kikuo Tachibana, nascido em uma família yakuza, é adotado por um ator de kabuki e, apesar das dificuldades, se torna um talentoso artista.”
Não só o glamour — que, inclusive, é colocado em segundo plano —, mas a dor de fazer o que gosta é escancarada no roteiro. Essa dor, às vezes vestida de autorrealização, é mais “poderosa do que armas e bombas”; é o sentimento pelo qual o ser humano se relaciona desde sempre.
Desde a infância até o fim da vida, somos traspassados por dores. Tudo dói. Viver dói. Há quem ressignifique esse sentimento e passe a viver de forma mais leve (uma atitude louvável). Há quem encare essa dor de forma mais altiva, tentando extrair dela o sucesso. As duas formas são válidas.
Mas também existem aqueles que são corrompidos pela dor; estes não sentem remorso em mentir, roubar e passar por cima de outras pessoas. Eles geralmente estão nos mais altos postos sociais. São os políticos que fizeram história (leia-se guerra), CEOs que mudaram o paradigma do consumo, os grandes artistas, os bilionários.
Em Kokuho, somos levados a conhecer uma pessoa corrompida pela dor. Alguém que tentou, de todas as formas, arrancar da vida o que lhe era devido.

O curioso é que a sociedade é dúbia nessa questão. Como pessoas comuns, nos comprometemos a instigar o melhor nos outros. Como seres econômicos, queremos o melhor — sempre o melhor —, não importa o preço.
Quando essa cobrança subentendida encontra o desejo de autoaprovação, o resultado é uma pessoa obcecada pelo sucesso. Mas, quando vemos alguém assim em nosso meio, nos retiramos da equação. Para conseguirmos dormir à noite, preferimos não nos responsabilizar pela obsessão alheia.
Ao terminar Kokuho, não siga o caminho fácil do julgamento. Pergunte-se em que momento da sua vida você se deixou levar pela busca da perfeição — ou se um dia irá se deixar. Será que não podemos aprender um pouco com a vida de Kikuo?
O roteiro foi baseado no romance de Shûichi Yoshida, que passou três anos trabalhando nos bastidores do teatro kabuki. Essa pesquisa minuciosa o colocou em uma posição privilegiada. A propósito, seu livro é ainda mais profundo do que o que vemos na tela.
Já os atores Ryo Yoshizawa e Ryusei Yokohama passaram 18 meses convivendo com um verdadeiro onnagata (ator especialista em papéis femininos no kabuki). Ao mesmo tempo em que essa preparação foi um luxo, revelou-se também “angustiante”, segundo Yoshizawa.

A primeira versão de Kokuho tinha mais de quatro horas. Para o diretor Sang-il Lee, foi um verdadeiro desafio reduzi-la para cerca de três horas. Essa grandiosidade temporal — na preparação do elenco, na escrita do livro, no primeiro corte e na centenária cultura kabuki — é o que o consolida como um épico.
Para mim, Kokuho é um filme em que raras circunstâncias se alinham. Sang-il Lee (dos aclamados Um Paraíso Havaiano e Fúria) conseguiu nos transportar para uma cultura distante. Sua montagem é objetiva, ainda que um pouco óbvia.
A tentativa de intervir com a visão de um “sonho” do protagonista deixa evidente o esforço para explicar o que ele buscava. Com isso, o impacto da última cena perde potência, pois já sabíamos o que viria.
O longa foi indicado a Melhor Maquiagem e Penteados no Oscar 2026. O trabalho no design de produção é tão preciso que me deu vontade de imergir ainda mais naquele universo visual. O filme é um espetáculo aos olhos: algumas cenas realmente encantam, e a simplicidade de décadas atrás desperta uma nostalgia gostosa de viver.
Todos os elementos diegéticos são charmosos. As canções instrumentais e cantadas funcionam como uma âncora temporal: mantêm-nos naquele universo e dão um alívio em meio à tensão.

Apesar do empenho da produção, o roteiro recai em alguns lugares-comuns. A tentativa de amarrar a subtrrama da filha serviu como uma pequena redenção ao personagem, mas era desnecessária. A história deveria focar totalmente em nos provocar, sem se preocupar em redimir o protagonista.
Já a relação dele com o seu “irmão” é construída de maneira subjetiva. Os homens — mesmo os artistas — raramente falam sobre o que sentem. Às vezes é mais fácil se ausentar do que encarar a dor; calar em vez de clamar por justiça.
Kokuho não é uma história com exemplo de sucesso, pelo menos para mim. Sou mais inclinado ao equilíbrio entre vida pessoal e profissional; entre sucesso e família; entre dinheiro e paz.
Ops… acho que, com isso, me ausentei mais uma vez da culpa de criar, socialmente, pessoas obcecadas pelo sucesso. Bom, afinal, eu preciso dormir à noite.
Mapas Estranhos – Uketsu
Um mapa enigmático, um vilarejo abandonado e mortes suspeitas. Do mesmo autor dos fenômenos ‘Casas Estranhas’ e ‘Imagens Estranhas’!











