Sabe quando você assiste um filma da A24 e fica pensando por dias nele? Ou então, no final, você não sabe dizer exatamente porque se sentiu tão atraído pela história?
Criado em 2012, a A24 se estabeleceu como uma das grandes produtoras de cinema e TV dos Estados Unidos. Com uma abordagem única e uma visão particular sobre como criar e contar histórias, a empresa é conhecida mundialmente por ter sempre um diferencial em seus filmes.
No artigo de hoje, procuro investigar os pilares que constituem a filosofia da A24 para tentar encontrar o segredo por trás de tudo!
A criação da produtora

A A24 foi fundada por Daniel Katz, David Fenkel e John Hodges. Os três já eram veteranos na indústria do cinema. O nome foi inspirado na autoestrada a24, na Itália, por onde Katz estava passando quando decidiu fundar a empresa.
Desde o início, e também por seu tamanho, a produtora buscou por histórias e cineastas independentes ou no começo de suas carreiras.
O primeiro filme lançado foi As Loucuras de Charlie (2012). O roteiro e a direção foi de Roman Coppola e marcou sua estreia nos cinemas. Apesar de ter ultrapassado US$ 200 milhões de dólares nas bilheterias, a produção foi um fracasso de crítica.
No fim de 2012, porém, com o lançamento de Spring Breakers: Garotas Perigosas (2012), do pouco conhecido Harmony Korine, a produtora começou a se destacar. O filme teve uma certa relevância na crítica, mesmo não tendo feito uma bilheteria tão expressiva como a anterior.
Mas o sucesso mesmo veio com Ex_Machina: Instinto Artificial (2014) e O Quarto de Jack (2015). Ambos os filmes com sucesso absoluto nas críticas e entre o público. O Quarto de Jack ganhou ainda um Oscar e projetou a atriz Brie Larson para trabalhos de grandes orçamentos.
Sendo distribuindo ou produzindo, a A24 mantém suas características em abordar um projeto. Essas particularidades podem ser a resposta para o possível segredo da produtora.
Os 5 pilares da A24
Embora existam certas características temáticas e estilísticas que podem ser encontradas em muitos dos filmes produzidos pela A24, é importante notar que a diversidade e a singularidade das histórias são uma marca registrada do estúdio.
No entanto, podemos listar 5 individualidades que norteiam a decisão da A24:
- Narrativa independente: a produtora opta por histórias independentes e não convencionais. Inclusive, por temas pouco explorados no cinema mainstream e que apresente uma abordagem narrativa diferente. Exemplos disso são os filmes Moonlight: Sob a Luz do Luar (2016), que aborda o drama de um jovem negro nos Estados Unidos, e O Lagosta (2015) que mistura comédia, drama e ficção cientifica.
- Realismo e autenticidade: a A24 busca por histórias autênticas e realistas, o que geralmente resulta em questões pessoais, sociais ou emocionais profundas. Os filmes tendem a abordar essas temáticas de forma honesta e crua. Exemplos são Lady Bird (2017), que acompanha o amadurecimento de uma adolescente, e Oitava Série (2018) que mostra uma garota de 13 anos lidando com a mudança de ano na escola.
- Personagens complexos: outra característica é justamente trabalhar com personagens complexos e multifacetados. Os protagonistas são muitas vezes pessoas comuns que enfrentam desafios pessoais e emocionais. Filmes assim, por exemplo, são Hereditário (2018), que mostra uma complicada relação familiar depois de uma grande perda, e Joias Brutas (2019) onde a história gira em torno de um joalheiro canastrão e viciado em apostas.
- Abordagem artística e estilística: a A24 valoriza uma abordagem estilística, onde a trilha musical, direção de arte e o design do filme sejam cuidadosamente elaborados. Exemplos são Projeto Flórida (2017), que mostra mãe e filha vivendo próxima de um grande sonho, e High Life (2018) que mostra um pai e sua filha sobrevivendo no espaço profundo.
- Narrativa subversiva: ainda sobre narrativa, alguns filmes apresentam finais e reviravoltas que surpreendem o público. Ou histórias com finais abertos ou conclusões ambíguas. Os exemplos são Ex_Machina: Instinto Artificial (2014), que mostra uma criação articial sendo submetida ao teste de Turing, e O Sacrifício do Cervo Sagrado (2017), um suspense psicológico que mostra um cirurgião diante de uma situação impossível.
Apesar destes cinco pilares nortearem as decisões de produção e distribuição de filmes pela A24, acredito que haja uma característica de roteiro que une grande parte dos filmes: o “slow-burn”.
O slow-burn nos roteiros da A24
Sob a perspectiva da escrita do roteiro de cinema, o slow-burn é um recurso narrativo que tem a intenção de envolver o espectador com a história. Além disso, apresenta um desenvolvimento lento e tende a ser contemplativo.
Nessas histórias, de forma gradual e constante somos direcionados a um certo ponto, geralmente explosivo e decisivo, levando em consideração a tensão e o suspense construído ao longo do filme.
Outra característica desse tipo de historia é a apresentação de informações. O público não recebe muito contexto do que está acontecendo e aos poucos vai se acostumando com a realidade apresentada.
Dessa forma, se você resumir um filme slow-burn para alguém, provavelmente não será a mesma coisa se a pessoa assistir, já que ela não estará conectada emocionalmente com os personagens e com a historia. O clímax, o ponto de virada e o desfecho pode até ser considerado “bobo” ou “fraco”, se não levar a devida consideração à circunstância apresentada em tela.
Exemplos de filmes da A24 que podem ser considerados slow-burn são:
- A Bruxa (2015) que consegue construir um clima tão tenso numa pequena família;
- Moonlight: Sob a Luz do Luar (2016) que inclusive distingue em três épocas a vida do protagonista;
- Sombras da Vida (2017) que para mim é o exemplo máximo de construção de distância temporal para alcançar um objetivo emocional tão marcante;
- e por último O Farol (2019) que aos poucos vai colocando peças em nossas cabeças que formam um grande desfecho no fim.
O respiro que a A24 representa
Eu sempre gosto de pensar que os filmes da A24 são para todos. Mesmo com abordagens diferentes de produções milionárias, o cinema é uma arte e assim sendo, sua interpretação é subjetiva.
Mesmo com finais complexos, abertos ou ambíguos, as produções da A24 são para pessoas que querem fugir da mesmice. A produtora se tornou tão importante que mesmo seus “concorrentes”, os grandes estúdios de Hollywood, veem a empresa com respeito.
É por isso que eu amo o cinema, porque tem espaço para todo mundo (ou pelo menos deveria ser assim).
Concluindo, mesmo apresentando estes pontos, o grande segredo da A24 é justamente ser fiel à sua visão e missão, fazendo dela um exemplo de como o diferente pode unir o público no mesmo senso comum: a paixão pelo cinema!