O Armário de Criptonita: Lex Luthor e a Relevância do Queer Coding em Smallville

Com a estreia de Smallville no streaming, uma nova geração está descobrindo que o segredo de Clark Kent não é a única coisa escondida nas sombras de Kansas. O termo “queer coding” — o uso de traços e maneirismos para sinalizar a homossexualidade de um personagem sem torná-la explícita — é uma ferramenta tão antiga quanto o próprio cinema, e Lex Luthor é, talvez, o seu maior expoente no novo milênio.

O Vilão e a Masculinidade Tradicional

Historicamente, o cinema codificou a masculinidade americana como estóica e física. Em contraste, o vilão era frequentemente “feminizado”: um homem que representava uma ameaça sexual não apenas para as mulheres, mas também para os homens.

No caso de Lex Luthor, essa codificação é evidente em duas versões icônicas:

  • Batman v Superman (Jesse Eisenberg): Um Lex frenético, de cabelos longos, fisicamente invasivo e fascinado pela “luta de gladiadores” entre o Filho de Krypton e o Morcego de Gotham — uma fixação por uma violência que ele não pode exercer, mas que o excita intelectualmente.
  • Smallville (Michael Rosenbaum): Um Lex mais sutil, cujas cores (lilás e lavanda) remetem diretamente ao código Hays de vilões “afeminados”. Sua fala é sedutora, um sussurro que contrasta com a brutalidade tradicional de seu pai, Lionel.

Alexandre, o Grande e o Peso do Nome

O Lex de Smallville é explicitamente nomeado em homenagem a Alexandre, o Grande. Na série, essa não é apenas uma referência ao seu desejo de conquista, mas também ao seu modelo de intimidade. Alexandre é historicamente lembrado por sua devoção a Heféstio, seu segundo em comando. Lex, nas primeiras temporadas, demonstra essa mesma devoção absoluta por Clark, desejando desesperadamente fazer parte de sua família e de sua vida.

Clark Kent e o “Super-Armário”

A teoria do Armário de Criptonita sugere que o segredo de Clark — ser um alienígena — funciona como uma metáfora perfeita para a experiência de jovens LGBTQIA+.

  1. A Fraqueza Secreta: A criptonita é o lado íntimo do segredo de Clark; é a fraqueza que ele deve esconder a todo custo para sobreviver.
  2. A Vigilância de Lex: Lex é o personagem que tenta, por vezes violentamente, “arrancar” o segredo de Clark do reino privado. Ele quer a verdade, mas em Smallville, a verdade e o desejo estão intrinsecamente ligados.

“A ‘clausura’ não é um silêncio qualquer, mas um silêncio que ganha particularidade em relação ao discurso que o cerca.” — Eve Sedgwick, Epistemologia do Armário.

O Espantalho e a Simbologia do Ódio

A série se usou de um caso real para dar visibilidade à causa Queer.

Um dos momentos mais perturbadores do piloto de Smallville é Clark pendurado como um espantalho em um milharal. Para o público em geral, é uma imagem de crucificação. Para a comunidade queer, no entanto, a imagem evoca o assassinato real de Matthew Shepard, um jovem gay espancado e amarrado a uma cerca no Wyoming em 1998, apenas três anos antes da estreia da série.

Essa “captura” de imagens de crimes de ódio reais empresta à série uma gravidade gótica que vai muito além de um drama adolescente comum.

Conclusão: Além da Amizade

A relação entre Clark e Lex é um choque entre o pastoral (a fazenda, a pureza, o segredo guardado) e o urbano (Metrópolis, o cinismo, o desejo de expor). Ao reescrever a rivalidade clássica como uma amizade vulnerável e carregada de pausas significativas, Smallville permitiu que o público visse o herói e o vilão não como opostos absolutos, mas como dois homens presos em seus próprios armários, cujos destinos foram selados pela incapacidade de Clark de confiar e pela obsessão de Lex em possuir a verdade.

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