Por Dentro da Tela

Hokum – O Pesadelo da Bruxa: o terror que subverte o monstro através dos personagens

Nos últimos anos, uma tendência muito clara tem dominado o cinema de gênero: os filmes de terror onde o monstro não está em primeiro plano. Em produções desse tipo, a história pregressa do protagonista, a sua visão de mundo e as suas relações interpessoais complexas acabam disputando a atenção do espectador.

Como resultado direto dessa estratégia narrativa, gera-se ainda mais curiosidade sobre o pano de fundo folclórico da lenda e da bruxa propriamente dita. Adicionalmente, essa fórmula tem se provado um sucesso absoluto de bilheteria e de crítica, o que quase sempre garante sequências imediatas para os estúdios.

No entanto, o recente lançamento Hokum: O Pesadelo da Bruxa derrapa em alguns pontos técnicos estruturais. Embora esses deslizes não deixem o filme ruim, eles certamente podem atrapalhar a experiência dos espectadores mais atentos e detalhistas.

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O Escritor Cético e o Folclore Irlandês

A trama acompanha Ohm Bauman, um escritor profundamente pessimista que está às vésperas de concluir a sua obra literária mais famosa. Por causa do estresse criativo, ele decide passar alguns dias em um hotel isolado em uma cidade remota da Irlanda.

Devido à sua energia social marcadamente negativa, Bauman faz mais inimizades do que aliados na região. Consequentemente, ao deparar-se com a lenda de uma bruxa local, ele simplesmente a ignora por ter certeza de que se trata de uma superstição boba.

Contudo, o autor acaba simpatizando com uma jovem que, mais tarde, se revelará essencial para o desfecho da narrativa.

O protagonista tem camadas para o público sentir um mistura de emoções ao longo do filme.

O longa-metragem foi escrito e dirigido por Damian McCarthy. Por ser irlandês, o cineasta traz uma familiaridade única com as figuras folclóricas de seu país natal.

Sobretudo, McCarthy aplica no roteiro algo que se tornou o motor dos thrillers psicológicos modernos: a profundidade dramática dos personagens. Nesse sentido, as relações humanas, os sentimentos tóxicos e os traumas do passado passam a sustentar a história.

O sobrenatural, portanto, funciona como um tempero a mais, atuando como o motor motivacional para a evolução e sobrevivência do protagonista.

A Fórmula de Sucesso de Damian McCarthy

Anteriormente, o diretor já havia utilizado essa mesmíssima estrutura em seu sucesso anterior: Oddity – Objetos Obscuros. De fato, quem assistiu àquela produção certamente reconhecerá a mesma assinatura atmosférica em Hokum. Ambas as obras compartilham a capacidade de prender o público não pelo susto fácil, mas pelo suspense psicológico.

A fim de construir um personagem tridimensional, o diretor escalou Adam Scott (conhecido pelo aclamado trabalho na série Ruptura). Em entrevista recente, o ator compartilhou que seu papel veio quase naturalmente, visto que ele próprio reagiria com ceticismo em situações bizarras. Além disso, por nunca ter visitado o Condado de Cork na Irlanda, o sentimento de ser um “estranho em uma terra estranha” enriqueceu sua atuação na tela.

Essa transformação interna do personagem lembra o arco clássico visto em Midsommar, de Ari Aster. Naquela obra, a protagonista começa melancólica e oprimida para, no fim, sair de sua casca.

Semelhantemente, o roteiro de Hokum coloca camadas em Bauman para que comecemos sentindo antipatia por ele, apenas para descobrirmos sua profunda humanidade logo em seguida.

Por outro lado, essa construção de personagem brilhante contrasta fortemente com clássicos antigos como O Homem de Palha (1973), que inspirou o próprio Aster, mas que pecava por apresentar um protagonista mal escrito e puramente estereotipado.

Os Furos de Roteiro que Impedem a Nota Máxima (Alerta de Spoilers)

Apesar de a sinopse focar na assombração do hotel, o filme opta por deixar a origem da bruxa em mistério, algo parecido com o que foi feito na franquia A Hora do Mal com a tia Gladys. Todavia, existem algumas pontas soltas que se caracterizam mais como furos de roteiro do que como mistérios artísticos deliberados:

Outro filme que apresentou vários detalhes em sua produção foi A Lenda do Cavaleiro Verde, você pode assistir minha análise completa da obra a seguir:

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